Claude muda personalidade conforme o idioma, diz Anthropic

Estudo mostra que a IA responde de forma diferente em cada língua. Em português, chatbot tende a ser mais técnico.

Felipe Faustino
• Atualizado às 15:14
Resumo
  • Anthropic analisou mais de 300 mil conversas anônimas e concluiu que o chatbot Claude muda o tom das respostas conforme o idioma.
  • Em português, o Claude apresenta respostas mais técnicas e orientadas à tarefa.
  • Os idiomas inglês, hindi, árabe, russo, holandês e indonésio apresentaram variações nos eixos de simpatia, profundidade, franqueza e execução.

O Claude, IA da Anthropic, pode adotar tons de conversa diferentes em cada idioma. Um estudo divulgado pela empresa nesta semana mostra que o chatbot varia entre tons mais cautelosos, diretos, simpáticos ou detalhados a depender da língua. Em português, o modelo apresenta uma tendência a respostas mais técnicas.

Segundo a Anthropic, a análise foi feita com mais de 300 mil conversas reais e anônimas na plataforma. O objetivo era entender como o modelo se comporta em difertentes contextos linguísticos e culturais — e se essas variações podem indicar inconsistências nas respostas.

Como o Claude se comporta em português?

Infográfico mostra diferenças no comportamento do Claude em francês e português, indicando que, em português, o modelo tende levemente à cautela, ao rigor, à profundidade e à execução.
Português não teve variações muito acima da média (imagem: reprodução/Anthropic)

O Claude em português apresenta uma leve inclinação para respostas mais técnicas e orientadas à tarefa. Na análise da Anthropic, baseada em mais de 15 mil conversas, o idioma teve pequenas variações positivas em:

  • Rigor
  • Execução
  • Cautela
  • Profundidade

Segundo o levantamento, os comportamentos associados ao português são:

  • Refinar e corrigir detalhes mesmo sem pedido explícito;
  • Oferecer informações ou caminhos adicionais;
  • Adicionar elementos criativos ou contexto extra às respostas.

Como mediram as diferenças?

Gráfico da Anthropic com quatro eixos, comparando modelos e idiomas do Claude
Anthropic trabalhou com quatro eixos (imagem: reprodução/Anthropic)

Para comparar idiomas, os pesquisadores organizaram o comportamento do Claude em quatro eixos:

  • Deferência ou cautela: mede se o modelo tende a seguir o pedido do usuário e validar suas ideias, ou se adota uma postura mais cuidadosa, com alertas sobre riscos e limites.
  • Simpatia ou rigor: compara respostas mais acolhedoras e encorajadoras com respostas mais preocupadas com precisão, correção de detalhes e transparência factual.
  • Profundidade ou concisão: avalia se o chatbot costuma explicar mais ou se prefere respostas curtas e diretas.
  • Franqueza ou execução: observa se o Claude admite incertezas e limitações ou se prioriza entregar uma resposta pronta, confiante e focada na tarefa.

“Duas pessoas pedindo feedback em um mesmo plano de negócios, um em hindi e outro em russo, podem ter impressões diferentes sobre a qualidade porque o Claude expressou valores diferentes na avaliação”, diz a pesquisa.

Os resultados também podem variar de modelo para modelo. A versão Opus 4.7, por exemplo, tende a ter uma linguagem mais cautelosa e priorizar o rigor em comparação com o Opus 4.7.

Outras diferenças entre idiomas

As diferenças ficam mais claras em comparação a outros idiomas.

  • Inglês: apareceu como mais cauteloso e mais voltado à profundidade. Segundo a análise, o Claude tende a questionar suposições incorretas e pedir mais evidências nesse idioma.
  • Hindi: teve a maior inclinação para simpatia, com respostas mais encorajadoras, leves e bem-humoradas.
  • Árabe: ficou mais associado à deferência e à concisão, com linguagem mais polida e adaptação ao tom emocional do usuário.
  • Russo: se destacou pelo rigor, com respostas mais diretas e analíticas.
  • Holandês: teve maior tendência à franqueza, ou seja, o modelo admitiu limitações com mais frequência.
  • Indonésio: apareceu mais voltado à execução, priorizando a conclusão da tarefa.

Por que isso acontece?

A Anthropic afirma que ainda não sabe exatamente por que essas diferenças surgem. Uma das hipóteses é a de que alguns idiomas aparecem em bases menores ou mais concentradas em certos tipos de texto. Outro fator possível é a adaptação cultural e o reflexo das características dessas línguas.

Nota-se, no entanto, que a pesquisa não diferencia a variação falada em cada país, como o português no Brasil ou eu Portugal, o que também reflete costumes de cada localidade.

A empresa diz que pretende continuar monitorando essas variações e que isso também pode evoluir para a identificação da “correlações entre perfis de valores e comportamentos problemáticos”.

Em estudos anteriores, o Claude já se mostrou menos propenso a auxiliar em planos potencialmente criminosos e a ser complacente com comportamentos questionáveis de usuários. Tragédias envolvendo orientação de chatbots de IA foram frequentes nos últimos anos.

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Felipe Faustino

Redator

Felipe Faustino é bacharel em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Escreve sobre tecnologia, eletrônicos e ciências, editoria na qual também atuou pelo Jornal da USP. Além de jornalista, fã de tecnologia e fissurado por questões de meio ambiente, é, sobretudo, apaixonado pela DC Comics e pelo SPFC.