Uma investigação conduzida pelo laboratório de pesquisas Citizen Lab, vinculado à Universidade de Toronto, no Canadá, revelou um formato de ataque capaz de infectar celulares por meio de anúncios exibidos na internet. Batizada de “AdFection”, a tática funciona sem necessidade de interação da vítima e ativa programas espiões no instante em que as publicidades carregam na tela de sites ou aplicativos.

Análise Técnica
Os dados apurados mostram que a empresa de publicidade Discover-Tech conectou os sistemas a servidores da desenvolvedora Candiru. Com a ponte estruturada, dispositivos foram monitorados e direcionados para receber programas espiões avançados. Registros de análise técnica confirmaram que ao menos 45 aparelhos ligados ao canal de notícias “Al Jazeera” foram atingidos entre 2024 e 2025.
Conexão entre Anúncios e Espiões
A plataforma permite que atores maliciosos perfilem e tirem o anonimato com precisão milhões de indivíduos, identifiquem seus dispositivos e os atinjam com uma forma de invasão de clique zero, na qual os aparelhos podem ser automaticamente infectados no momento em que um anúncio é exibido.
Impacto e Consequências
O risco dessa abordagem é a falta de sinais visíveis de contaminação. Em invasões do tipo “clique zero”, não é necessário abrir links suspeitos ou baixar arquivos para ser atacado. A estratégia se vale do sistema de leilões automatizados de anúncios digitais, processo em que empresas disputam espaços publicitários em milissegundos para exibir conteúdos direcionados. Ferramentas da Discover-Tech rastrearam e identificaram aparelhos em milhares de aplicativos e páginas da web entre março e junho, com presença detectada até mesmo em redes ligadas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e à Organização das Nações Unidas (ONU).
Ação das Empresas
Diante do diagnóstico trazido pelo estudo, grandes empresas de tecnologia cortaram o acesso da operadora de anúncios às suas redes. A Alphabet, controladora do Google, confirmou o bloqueio da empresa após checagens internas conduzidas em conjunto com especialistas em cibersegurança.
Conclusão
A proliferação desse modelo de ataque expõe fragilidades na distribuição de mídias programáticas, em que a verificação de anunciantes nem sempre barra ferramentas maliciosas antes que atinjam o público final. A contenção exige mudanças nas regras de checagem do setor e a adoção de bloqueadores no gateway das redes. A combinação da inteligência publicitária com a entrega de programas espiões é extremamente preocupante. Ver entidades da indústria publicitária e do setor de espionagem formando uma aliança deve ser um alerta para reguladores e formuladores de políticas em todo o mundo. A menos que a indústria de anúncios enfrente seriamente a distribuição de sistemas espiões por meio de anúncios direcionados, essa infraestrutura continuará sendo explorada.