Quando o corpo detecta uma infecção, as primeiras células a chegar ao local são os neutrófilos. Por décadas, a ciência os enxergou como soldados simples, rápidos e sem sofisticação química. No entanto, um estudo publicado na revista Advanced Science derruba essa visão. Pesquisadores das universidades de Münster e Bochum, na Alemanha, descobriram que os neutrófilos possuem a mesma maquinaria química dos neurônios e usam dopamina, adrenalina e noradrenalina para se comunicar durante uma inflamação.
Como os Neutrófilos Liberam Catecolaminas
O maior obstáculo até agora era técnico. Os métodos convencionais de laboratório não conseguem capturar esse processo ao vivo. A equipe resolveu o problema usando nanosensores: detectores microscópicos feitos de nanotubos de carbono de parede única, sensíveis especificamente a catecolaminas. Esses sensores foram espalhados em placas de vidro, e os neutrófilos foram colocados diretamente sobre eles. Quando uma célula liberava dopamina ou adrenalina, os nanosensores acendiam, e uma câmera registrava tudo em tempo real.
A Comunicação Química
O que ninguém havia provado diretamente antes era que células do sistema imune fazem o mesmo: capturam essas substâncias, as armazenam em pequenas bolsas internas chamadas vesículas e as liberam em resposta a estímulos específicos, exatamente como um neurônio faz durante uma sinapse.
Estímulos e Resposta
Os experimentos mostraram que os neutrófilos liberam catecolaminas quando expostos a três tipos de estímulos: serotonina liberada por plaquetas ativadas, componentes de bactérias como o LPS e outras moléculas de sinalização inflamatória. A liberação acontece em segundos, e é antecedida por um pico de cálcio dentro da célula, semelhante ao que ocorre nos neurônios antes de uma sinapse. A velocidade é diferente, em neurônios, o processo leva milissegundos; nos neutrófilos, dezenas de segundos, mas o mecanismo é análogo.
Efeitos da Liberação de Catecolaminas
As catecolaminas liberadas pelos neutrófilos não ficam sem consequência. O estudo mostra que elas funcionam como um regulador interno da inflamação: reduzem a formação excessiva de armadilhas extracelulares, estruturas que os neutrófilos lançam para capturar bactérias, mas que, em excesso, podem danificar tecidos saudáveis. Ao mesmo tempo, aceleram a agregação de plaquetas, o processo que inicia a coagulação do sangue. Isso cria um circuito de feedback direto entre o sistema imune e o sistema vascular, com as mesmas substâncias fazendo a ponte.
A Importância Genética
Para garantir que o fenômeno não era apenas um artefato de laboratório, os pesquisadores analisaram o perfil genético de voluntários saudáveis que receberam uma injeção controlada de componentes bacterianos, um modelo estabelecido para estudar inflamação sistêmica em humanos. Os dados mostraram que, durante a resposta inflamatória, os neutrófilos ajustam ativamente seus receptores de catecolaminas e seus programas de produção e degradação dessas substâncias. O padrão é bifásico: primeiro uma redução, depois uma ativação significativa, sugerindo que o sistema está se calibrando em resposta à inflamação.
Conclusão
Este é um sinal de que esse mecanismo desempenha um papel significativo na resposta inflamatória humana. Os neutrófilos, assim como os neurônios, usam neurotransmissores para se comunicar durante inflamação, mostrando uma semelhança surpreendente entre o sistema imune e o sistema nervoso.
Layse Ventura é editora de SEO no Olhar Digital e mestre pela UFSC.