Os registros dos desastres climáticos mais letais já ocorridos podem não ser suficientes para prever o tamanho dos eventos extremos que ainda podem acontecer, alertam pesquisadores do King’s College London. Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista Nature Sustainability.
Falhas nas Ferramentas de Avaliação
Os métodos de planejamento conseguem simular eventos mais intensos que os conhecidos, mas têm dificuldade para imaginar situações completamente sem precedentes. Isso pode fazer com que governos e outras instituições não estejam preparados para cenários capazes de provocar impactos muito maiores sobre a população, a infraestrutura e a saúde.
Mortes Letais por Ciclones e Ondas de Calor
O estudo analisou as mortes provocadas por ciclones tropicais e eventos de calor extremo entre 2000 e 2025. Os resultados mostram que a maior parte das vítimas ficou concentrada em um pequeno número de grandes desastres. Um exemplo é o ciclone Nargis, que matou quase 140 mil pessoas em Mianmar em 2008.
Eventos Climáticos Sem Precedentes
Os pesquisadores defendem avaliar cenários climáticos sem precedentes no planejamento de riscos. Para enfrentar essa lacuna, eles defendem três prioridades: realizar análises antecipadas com especialistas de diferentes áreas, entender melhor os limites a partir dos quais os impactos dos eventos extremos podem aumentar rapidamente, e mapear os limites físicos do clima em condições muito mais quentes ou frias do que as observadas atualmente.
Conclusão
A análise levou os pesquisadores a considerar que eventos futuros extremamente raros poderiam provocar números de mortes na casa dos milhões. Eles ressaltam, porém, que a possibilidade de um cenário acontecer não significa que ele seja provável.
O clima atual já é diferente daquele observado durante boa parte do período em que os registros históricos foram produzidos, enquanto os eventos que ficaram conhecidos como os mais extremos representam apenas aquilo que aconteceu até agora. Os métodos atuais conseguem trabalhar com situações conhecidas em uma intensidade maior. Um exemplo seria considerar um furacão com velocidades de vento superiores às já registradas. O problema aparece quando diferentes extremos acontecem ao mesmo tempo, criando condições que não possuem precedente histórico.
Para enfrentar essa lacuna, os pesquisadores defendem três prioridades. A primeira é realizar análises antecipadas com especialistas de diferentes áreas, incluindo comunidades diretamente afetadas, seguradoras, modeladores climáticos, pesquisadores de riscos e escritores de ficção climática. A segunda é compreender melhor os limites a partir dos quais os impactos dos eventos extremos podem aumentar rapidamente. A terceira consiste em mapear os limites físicos do clima em condições muito mais quentes ou frias do que as observadas atualmente.
Matheus Labourdette é redator no Olhar Digital. Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.