A relação da comunicadora Iara Rodrigues, 26 anos, com os aplicativos de relacionamento é marcada por uma profunda ambiguidade. Ao mesmo tempo que sente necessidade das plataformas para conhecer pessoas, a catarinense detesta o processo de se deparar com pretendentes no ambiente virtual. Ao longo dos anos, a jovem desenvolveu um complexo protocolo de segurança antes de aceitar ver pessoalmente qualquer rapaz com quem trocou mensagens.

O ‘manual de segurança’ para encontros por aplicativos de relacionamento

Passos de Iara

Os passos de Iara incluem pesquisas no Google e no LinkedIn, escolha estratégica do figurino, uso de transporte em que a placa do carro não seja identificada e a checagem rigorosa do local do encontro, preferencialmente um food hall movimentado e que ela já conheça bem.

Preocupação com Violência

A experiência de Iara traduz um fenômeno coletivo: a necessidade de criar protocolos rígidos de segurança para conseguir encontrar pessoalmente quem conheceu na internet. Esse movimento é reflexo da migração das relações amorosas para o ambiente virtual (em busca de uma falsa sensação de segurança), combinada aos altos índices de violência de gênero que atingem o mundo físico.

Psicóloga Lívia Boaretto

A psicóloga e psicanalista Lívia Boaretto observa que os encontros românticos se transformaram em um “fator estressor” sistêmico para as mulheres, pois exigem o planejamento contínuo de estratégias de fuga e a conjectura de cenários trágicos antes de abrir a porta de casa.

Medo e Realidade

A psicóloga Lívia ressalta que o medo não é desproporcional à realidade: “Nem todos os homens são iguais, mas eles precisam entender que há algo muito sério acontecendo. Em 2025, registramos o recorde de décadas em feminicídios, com milhares de mulheres mortas por homens”, alerta.

Violência de Ódio

A insegurança no ecossistema dos aplicativos não atinge apenas mulheres heterossexuais. Para a comunidade LGBTQIA+, pessoas pretas e pessoas com deficiência (PcDs), o flerte virtual pode virar isca para crimes de ódio, extorsão e violência física grave.

Investigação Policial

A especialista Tatiana Bastos, delegada da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, destaca que investigações policiais revelam um modus operandi ainda mais ostensivo nessas plataformas: “Na delegacia de combate à intolerância, realizamos a Operação Moedor, focada em crimes cometidos no Grindr. Registramos casos de extorsão, o golpe do ‘Boa Noite Cinderela’, lesão corporal grave, invasão de residências e espancamentos. A vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ e o medo do estigma social fazem com que esses grupos virem alvos frequentes de criminosos que usam o anonimato digital”.

Preconceito e Vulnerabilidade

O medo da violência e do anonimato virtual também atinge pessoas pretas e pessoas trans, que enfrentam camadas adicionais de risco, que vão da fetichização e discriminação a cenários em que o agressor utiliza a vulnerabilidade social da vítima para chantageá-la.

Conclusão

A necessidade de criar protocolos de segurança para encontrar pessoas pessoalmente através de aplicativos de relacionamento é um reflexo da migração das relações amorosas para o ambiente virtual, combinada aos altos índices de violência de gênero. É essencial que as pessoas se conscientizem desses perigos e adotem medidas de segurança para proteger suas vidas e bem-estar.

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