A iluminação artificial das grandes cidades pode estar contribuindo para aumentar a duração e intensidade das alergias, segundo um estudo publicado na revista PNAS Nexus. O estudo analisou regiões do nordeste dos Estados Unidos e constatou que árvores localizadas em áreas urbanas com altos níveis de iluminação noturna, como Nova York e Filadélfia, começam a liberar pólen mais cedo na primavera e continuam o processo por mais tempo durante o outono.
Poluição Luminosa e Ciclo Natural das Plantas
Os cientistas combinaram mais de uma década de dados sobre concentração de pólen com informações de luminosidade captadas por satélites. Os resultados mostraram que, em cidades como Nova York, a temporada de alergias costuma começar antes do início de março, enquanto em regiões mais escuras, como áreas rurais de Connecticut, ela geralmente se inicia cerca de um mês depois. O fim da temporada também ocorre mais tarde nas cidades, avançando até novembro.
Além da duração maior, a intensidade da exposição ao pólen também aumenta. Nas áreas com maior poluição luminosa, os níveis de pólen foram classificados como severos em aproximadamente 27% dos dias da temporada. Em locais menos iluminados, essa taxa ficou em torno de 17%.
Efeitos na Humanidade
Daniel Katz, ecologista vegetal da Universidade Cornell e um dos autores do estudo, explicou ao The New York Times que a luz artificial interfere diretamente nos mecanismos naturais das plantas. "As plantas frequentemente usam fatores como a duração do dia para decidir quando florescer ou desabrochar as folhas. Basicamente, enganamos as plantas para que tomassem decisões que normalmente não tomariam".
O estudo também destaca que a poluição luminosa influencia ciclos de polinização. Mesmo após considerar fatores como temperatura e precipitação, os modelos indicaram que a iluminação noturna exerce influência própria sobre os ciclos de polinização. A sensibilidade à luz varia entre as espécies. Enquanto algumas árvores dependem principalmente da temperatura para florescer, outras respondem fortemente à duração da exposição luminosa. Entre elas estão os plátanos, comuns em centros urbanos e conhecidos pelo elevado potencial alergênico.
Outros Efeitos da Iluminação Noturna
A luz noturna também pode afetar indiretamente o controle natural dessa planta. Experimentos indicam que minhocas, que se alimentam de suas sementes, tendem a permanecer escondidas no solo em áreas iluminadas, reduzindo sua atuação como predadoras naturais.
Outro destaque do estudo é a ambrosia, planta considerada uma das principais responsáveis por alergias sazonais. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que ela cresce mais sob condições de iluminação artificial, podendo atingir o dobro do tamanho observado em ambientes mais escuros.
A luz artificial durante a noite pode alterar o ritmo circadiano (o relógio biológico responsável por regular diversos processos do corpo) e favorecer respostas inflamatórias associadas a doenças alérgicas. Uma meta-análise citada pelos pesquisadores encontrou associação entre a poluição luminosa e um aumento de 62% no risco de asma, além de um crescimento de 89% na probabilidade de rinite alérgica, independentemente dos níveis de poluição do ar.
Conclusão
Os impactos podem ir além da vegetação. Estudos recentes sugerem que a exposição à poluição luminosa também influencia o organismo humano. Para especialistas, os resultados apontam caminhos práticos para reduzir o problema. Entre as medidas sugeridas estão a adoção de espécies menos alergênicas nos projetos de arborização urbana, a redução da intensidade de iluminação em postes e outdoors e o uso dos dados sobre luminosidade para aprimar previsões de pólen.
Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.